16* Cicatrizes
Há destinos que nos não souberam evitar. Há
pessoas, como nós, que lambem as cicatrizes e sentem as cordilheiras das
montanhas que souberam escalar. Há sorrisos que só se encontram entre os vales
destas montanhas. Não penses que me magoas, destino... não foras tu e teria
vivido terrivelmente vazia, nem sequer sozinha, terrivelmente vazia – e isso era como nunca haver nascido. Gostas de
mim porque sou o teu lar, lá, no vale, entre as cicatrizes, e dormes sempre um
sono profundo comigo.
Há destinos que nos não souberam evitar. Vieram
de encontro às nossas vidas e, momentaneamente, arrancaram-nos a alegria,
assustaram-na… e fugiu p’ra um sítio tão longe
que tocou no que já não existe mais. A alegria espantou-se com o abismo
íngreme do terror e ascendeu a um local inacessível ao horizonte, um vapor que
se consumiu e apagou a labareda do ânimo até ao ínfimo ponto de ignição.
Há
pessoas, como nós, que lambem as cicatrizes e sentem as cordilheiras das
montanhas que souberam escalar. Um torpor que nos envolveu o frio do fim e nos
tremeu a gargalhada inocente da infância. Que mundo é este? Quem és tu que não
te conheço? O calor empoeirado do pé descalço estarreceu quando o primeiro
crepúsculo abraçou o pio do mocho. Saltar liberta de rosto ao vento deixou de
ser por dentro, e por fora também. A melancolia estendeu-se pela planície
soalheira, plantou a sua sombra eterna e só se esconde quando a língua do
alvorecer ameno e triste atravessa o vale infinito do sono profundo.
Há
sorrisos que só se encontram entre os vales destas montanhas. Sorrisos que
deixaram de ser do princípio do ventre e passaram a ser maduros e doces como o
figo ou a cereja ou a uva. Sorrisos que embriagam a dor e a embalam no colo,
estendem-lhe a mão e caminham p’ra um lugar sem lugar, caminham porque são
íntimos, cúmplices, sabor de pertença a uma paz maior.
Não
penses que me magoas, destino... não foras tu e teria vivido terrivelmente
vazia, nem sequer sozinha, terrivelmente vazia – e isso era como nunca haver nascido. Não
penses que me magoas, destino… há-de haver germinar nesta pedra que insistes em
incrustar no meu peito (e está bonita, sabes?), exibição lapidada a rubi e
quartzo, para que me saibam tua posse e vejam o quanto te acolho como meu .
Aceito. E caminho, devagar, de aurora em aurora, de coaxar em coaxar, ainda pé
descalço naquele regato que me fala dos cântaros e do fado nas mãos calejadas
das lavadeiras.
O sol vai alto, queima as rugas
dos aventais que coram face à inconfidência dos que se amam no seio do trigo;
extensas planícies de sois que vão alto e que ardem nos corações que vertem a
dor no suor do estio; carreiros que regam os vales e pacificam a aspereza da
montanha que nunca chora.
Não penses que me magoas, destino … Gostas de mim
porque sou o teu lar, lá, no vale, entre as cicatrizes, e dormes sempre um sono
profundo comigo.
Há destinos que nos não quiseram evitar, antes
sentiram-se seduzidos e pactuaram um umbigo. É minha esta pedra com tom de acha
na fogueira, com vértice de serena procura e dolorosa verdade. É meu este
quartzo de rubi, cicatriz funda que cavou em mim um sentido de te querer
saudade. É meu este leito profundo onde durmo o meu sono tranquilo de mundo e
sei que te recebo sem que me digas alarde.
Conceição Sousa
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