Número total de visualizações de páginas

quinta-feira, 31 de julho de 2014

16* Cicatrizes


16* Cicatrizes

Há destinos que nos não souberam evitar. Há pessoas, como nós, que lambem as cicatrizes e sentem as cordilheiras das montanhas que souberam escalar. Há sorrisos que só se encontram entre os vales destas montanhas. Não penses que me magoas, destino... não foras tu e teria vivido terrivelmente vazia, nem sequer sozinha, terrivelmente vazia –  e isso era como nunca haver nascido. Gostas de mim porque sou o teu lar, lá, no vale, entre as cicatrizes, e dormes sempre um sono profundo comigo.

Há destinos que nos não souberam evitar. Vieram de encontro às nossas vidas e, momentaneamente, arrancaram-nos a alegria, assustaram-na… e fugiu p’ra um sítio tão longe  que tocou no que já não existe mais. A alegria espantou-se com o abismo íngreme do terror e ascendeu a um local inacessível ao horizonte, um vapor que se consumiu e apagou a labareda do ânimo até ao ínfimo ponto de ignição.

                Há pessoas, como nós, que lambem as cicatrizes e sentem as cordilheiras das montanhas que souberam escalar. Um torpor que nos envolveu o frio do fim e nos tremeu a gargalhada inocente da infância. Que mundo é este? Quem és tu que não te conheço? O calor empoeirado do pé descalço estarreceu quando o primeiro crepúsculo abraçou o pio do mocho. Saltar liberta de rosto ao vento deixou de ser por dentro, e por fora também. A melancolia estendeu-se pela planície soalheira, plantou a sua sombra eterna e só se esconde quando a língua do alvorecer ameno e triste atravessa o vale infinito do sono profundo.

                Há sorrisos que só se encontram entre os vales destas montanhas. Sorrisos que deixaram de ser do princípio do ventre e passaram a ser maduros e doces como o figo ou a cereja ou a uva. Sorrisos que embriagam a dor e a embalam no colo, estendem-lhe a mão e caminham p’ra um lugar sem lugar, caminham porque são íntimos, cúmplices, sabor de pertença a uma paz maior.

                Não penses que me magoas, destino... não foras tu e teria vivido terrivelmente vazia, nem sequer sozinha, terrivelmente vazia –  e isso era como nunca haver nascido. Não penses que me magoas, destino… há-de haver germinar nesta pedra que insistes em incrustar no meu peito (e está bonita, sabes?), exibição lapidada a rubi e quartzo, para que me saibam tua posse e vejam o quanto te acolho como meu . Aceito. E caminho, devagar, de aurora em aurora, de coaxar em coaxar, ainda pé descalço naquele regato que me fala dos cântaros e do fado nas mãos calejadas das lavadeiras.

                O sol vai alto, queima as rugas dos aventais que coram face à inconfidência dos que se amam no seio do trigo; extensas planícies de sois que vão alto e que ardem nos corações que vertem a dor no suor do estio; carreiros que regam os vales e pacificam a aspereza da montanha que nunca chora.

Não penses que me magoas, destino … Gostas de mim porque sou o teu lar, lá, no vale, entre as cicatrizes, e dormes sempre um sono profundo comigo.

Há destinos que nos não quiseram evitar, antes sentiram-se seduzidos e pactuaram um umbigo. É minha esta pedra com tom de acha na fogueira, com vértice de serena procura e dolorosa verdade. É meu este quartzo de rubi, cicatriz funda que cavou em mim um sentido de te querer saudade. É meu este leito profundo onde durmo o meu sono tranquilo de mundo e sei que te recebo sem que me digas alarde.

Conceição Sousa

Sem comentários:

Enviar um comentário