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sábado, 2 de agosto de 2014

17* ritmo cardíaco


17*

Ritmo Cardíaco


Quando encostei a minha cabeça no teu peito e senti que só me vivias porque o teu coração tudo batia, aí compreendi o tamanho do meu amor em ti, aí aconteceu o Everest do teu amor em mim. Um ouvido que, casualmente, escuta no ritmo de um coração o que duas bocas não falam. Um ouvido e um coração que entregam os seus donos à verdade dos corpos. E um beijo escalou a retina do nosso olhar, um brilho indígena ocupou o vale de nós... Eram cavalos que desciam afogueados pela encosta, um trote que montamos com o vento a sacudir ambos os nossos rostos - e não mais olhámos para trás: nunca mais.

Tu sorrias palavras tão tímidas que nem se atreviam a atravessar os solavancos dos nós, bem amordaçados nas ferraduras a galgar a garganta dos nossos peitos. Era íngreme a encosta, espaço exíguo entre dois humanos que exalam a névoa dos que se querem demais. As cordas vocais tremiam o pavor da insegurança e não obedeciam, barragem de som na cadência das palavras que se exigem libertas.

As palavras tomavam outra direção, disparavam em redor dos ventrículos e cavavam um galopar agitado, exerciam pressão sobre as veias que dilatavam essa vontade de me segredar ao ouvido um amor sincopado, um amor resguardado, um amor tão grande quanto o temor de não ser devolvido pela vibração do espelho. E a força das palavras martelou os cílios, as pálpebras cerraram a inconfidência e celebraram com o maxilar a dor da felicidade.

Quando encostei a minha cabeça no teu peito, quis que o abraço me envolvesse… tu aguardaste breves segundos, uma leve pressão no meu ombro esquerdo, era a tua mão direita a aclamar o sim, a nossa vitória, uma pressão maior na minha omoplata direita, a tua mão esquerda a puxar-me para o calor do nosso destino. Quem precisa da voz quando as palavras se dizem na pele? Não me disseste que me querias, foi o ritmo frenético do teu coração. Não te disse que te amava, foi o reclinar do meu rosto no teu tórax.

E assim nos entregamos ao que o tempo pede de nós. Leve torpor de vivência, toque quente ou frio, ardor ou gelo, músculo que enquanto bombeia se encarrega de nos dizer a verdade infalível em cada humano:

Só amas porque ainda te aqueço e tu podes ouvir. Arde.

Conceição Sousa

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