17*
Ritmo Cardíaco
Quando encostei a minha cabeça no teu peito e senti que só me
vivias porque o teu coração tudo batia, aí compreendi o tamanho do meu amor em
ti, aí aconteceu o Everest do teu amor em mim. Um ouvido que, casualmente,
escuta no ritmo de um coração o que duas bocas não falam. Um ouvido e um
coração que entregam os seus donos à verdade dos corpos. E um beijo escalou a
retina do nosso olhar, um brilho indígena ocupou o vale de nós... Eram cavalos
que desciam afogueados pela encosta, um trote que montamos com o vento a
sacudir ambos os nossos rostos - e não mais olhámos para trás: nunca mais.
Tu sorrias palavras tão tímidas que nem se atreviam a
atravessar os solavancos dos nós, bem amordaçados nas ferraduras a galgar a
garganta dos nossos peitos. Era íngreme a encosta, espaço exíguo entre dois
humanos que exalam a névoa dos que se querem demais. As cordas vocais
tremiam o pavor da insegurança e não obedeciam, barragem de som na cadência das
palavras que se exigem libertas.
As palavras tomavam outra direção, disparavam em redor dos ventrículos
e cavavam um galopar agitado, exerciam pressão sobre as veias que dilatavam
essa vontade de me segredar ao ouvido um amor sincopado, um amor resguardado,
um amor tão grande quanto o temor de não ser devolvido pela vibração do
espelho. E a força das palavras martelou os cílios, as pálpebras cerraram a
inconfidência e celebraram com o maxilar a dor da felicidade.
Quando encostei a minha cabeça no teu peito, quis que o
abraço me envolvesse… tu aguardaste breves segundos, uma leve pressão no meu
ombro esquerdo, era a tua mão direita a aclamar o sim, a nossa vitória, uma
pressão maior na minha omoplata direita, a tua mão esquerda a puxar-me para o
calor do nosso destino. Quem precisa da voz quando as palavras se dizem na
pele? Não me disseste que me querias, foi o ritmo frenético do teu coração. Não
te disse que te amava, foi o reclinar do meu rosto no teu tórax.
E assim nos entregamos ao que o tempo pede de nós. Leve torpor
de vivência, toque quente ou frio, ardor ou gelo, músculo que enquanto bombeia
se encarrega de nos dizer a verdade infalível em cada humano:
Só amas porque ainda te aqueço e tu podes ouvir. Arde.
Conceição Sousa
Sem comentários:
Enviar um comentário