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domingo, 3 de agosto de 2014

18* Naquele carro


18* Naquele carro

Quando entrámos naquele carro, soube que toda a minha vida se deu ali, naqueles breves instantes, ó meu Deus!, o quanto, feliz, sorri. Senti-me tão do que tu fazes parte, senti-te tão do que genuinamente sou... Quando saí, percebi a grandiosidade do que me acontecera e, só por isso, vivo em ti. Não mais a realidade se acercará, mas não importa, sabes, dei-me toda, a essa interminável boda. Posso afirmar: vivi.

Ou, escrito de outra forma…

Quando, por fora de mim, vos observei a caminhar, calçada acima, orvalho no rosto, devagar, vi logo que ela pensava “Nem acredito que isto me está a acontecer!, ai!, ofereceu-me mesmo boleia!”, e eu senti que ela assumiu que o seu momento, aquele de que havia abdicado há uma eternidade, acontecera mesmo, que o destino que era seu houvera preparado, ao ínfimo detalhe, a sua experiência de vida, a sua identidade de mundo. Ele gaguejava de espanto, não sabia que gesto articular, que palavra mover, de raciocínio perplexo ponderava desajeitado “ ai!, que vendaval é este?, eu queria mas… calculava que… daqui a uns dias talvez, mas é agora, nem posso crer que lhe abri a porta do meu carro, que faço, meu Deus?, é linda!, e o que faço meu Deus?”

Dois estranhos, segundo encontro, não mais do que cinco minutos em palavras, a sós, e já dentro de um carro. O que fazem dois estranhos com não mais do que cinco minutos de palavras dentro de um espaço tão apertado?

Ele, ofegante, tremor a sentir no seu corpo um habitat natural, nem a chave consegue descobrir o seu encaixe para a devida ignição ( cai ao tapete!), quanto mais  arriscar a sintonia exacta da música a lhe sussurrar toda a sua devoção. Ela, estupefacta, por se ver dentro, sentada, confortavelmente instalada na vida daquele homem que sentia conhecer de outras vidas, de outros caminhos, de outras cumplicidades e entendimentos. Um afecto tão grande, uma ternura tão imensa, um desejo tão feroz, um sentimento de pertença tão… ele era a identidade dela. Sentia-o assim: ela.

Toca-o na mão, ao de leve, sem querer, e é a nuca que o entrega, é o arrepio no pescoço após um subtil encolher involuntário que engrena o motor do olhar atento dela. Disfarça, não pretende melindrá-lo, nem tampouco oprimi-lo no seu livre arbítrio, sorri a gratidão do instante e aligeira o passo “ Nem pensar, não quero incomodar!”, não disse o resto, deveria ter terminado a frase “Nem pensar, não quero incomodar, só quero mesmo é …”

 Coloque aqui, caro leitor, todos os palavrões imagináveis e concretizáveis que o levem aos píncaros do êxtase -  àquele momento em que as pálpebras cerram por breves segundos e os olhos rodam sobre si mesmos para cima e para dentro, oh! -, pois bem, era isso que aqueles dois estranhos com não mais do que cinco minutos de conversa, sentiam.

Fugiram. Por incrível que pareça, fugiram. Já lá vão quatro anos, a caminho de cinco, e ainda ninguém os encontrou, nem tampouco um ao outro.

Oh!

Conceição Sousa

sábado, 2 de agosto de 2014

17* ritmo cardíaco


17*

Ritmo Cardíaco


Quando encostei a minha cabeça no teu peito e senti que só me vivias porque o teu coração tudo batia, aí compreendi o tamanho do meu amor em ti, aí aconteceu o Everest do teu amor em mim. Um ouvido que, casualmente, escuta no ritmo de um coração o que duas bocas não falam. Um ouvido e um coração que entregam os seus donos à verdade dos corpos. E um beijo escalou a retina do nosso olhar, um brilho indígena ocupou o vale de nós... Eram cavalos que desciam afogueados pela encosta, um trote que montamos com o vento a sacudir ambos os nossos rostos - e não mais olhámos para trás: nunca mais.

Tu sorrias palavras tão tímidas que nem se atreviam a atravessar os solavancos dos nós, bem amordaçados nas ferraduras a galgar a garganta dos nossos peitos. Era íngreme a encosta, espaço exíguo entre dois humanos que exalam a névoa dos que se querem demais. As cordas vocais tremiam o pavor da insegurança e não obedeciam, barragem de som na cadência das palavras que se exigem libertas.

As palavras tomavam outra direção, disparavam em redor dos ventrículos e cavavam um galopar agitado, exerciam pressão sobre as veias que dilatavam essa vontade de me segredar ao ouvido um amor sincopado, um amor resguardado, um amor tão grande quanto o temor de não ser devolvido pela vibração do espelho. E a força das palavras martelou os cílios, as pálpebras cerraram a inconfidência e celebraram com o maxilar a dor da felicidade.

Quando encostei a minha cabeça no teu peito, quis que o abraço me envolvesse… tu aguardaste breves segundos, uma leve pressão no meu ombro esquerdo, era a tua mão direita a aclamar o sim, a nossa vitória, uma pressão maior na minha omoplata direita, a tua mão esquerda a puxar-me para o calor do nosso destino. Quem precisa da voz quando as palavras se dizem na pele? Não me disseste que me querias, foi o ritmo frenético do teu coração. Não te disse que te amava, foi o reclinar do meu rosto no teu tórax.

E assim nos entregamos ao que o tempo pede de nós. Leve torpor de vivência, toque quente ou frio, ardor ou gelo, músculo que enquanto bombeia se encarrega de nos dizer a verdade infalível em cada humano:

Só amas porque ainda te aqueço e tu podes ouvir. Arde.

Conceição Sousa