18* Naquele carro
Quando entrámos naquele carro, soube que toda a minha vida se
deu ali, naqueles breves instantes, ó meu Deus!, o quanto, feliz, sorri.
Senti-me tão do que tu fazes parte, senti-te tão do que genuinamente sou...
Quando saí, percebi a grandiosidade do que me acontecera e, só por isso, vivo
em ti. Não mais a realidade se acercará, mas não importa, sabes, dei-me toda, a
essa interminável boda. Posso afirmar: vivi.
Ou, escrito de outra forma…
Quando, por fora de mim, vos observei a caminhar, calçada
acima, orvalho no rosto, devagar, vi logo que ela pensava “Nem acredito que
isto me está a acontecer!, ai!, ofereceu-me mesmo boleia!”, e eu senti que ela
assumiu que o seu momento, aquele de que havia abdicado há uma eternidade, acontecera
mesmo, que o destino que era seu houvera preparado, ao ínfimo detalhe, a sua
experiência de vida, a sua identidade de mundo. Ele gaguejava de espanto, não
sabia que gesto articular, que palavra mover, de raciocínio perplexo ponderava
desajeitado “ ai!, que vendaval é este?, eu queria mas… calculava que… daqui a
uns dias talvez, mas é agora, nem posso crer que lhe abri a porta do meu carro,
que faço, meu Deus?, é linda!, e o que faço meu Deus?”
Dois estranhos, segundo encontro, não mais do que cinco
minutos em palavras, a sós, e já dentro de um carro. O que fazem dois estranhos
com não mais do que cinco minutos de palavras dentro de um espaço tão apertado?
Ele, ofegante, tremor a sentir no seu corpo um habitat
natural, nem a chave consegue descobrir o seu encaixe para a devida ignição ( cai
ao tapete!), quanto mais arriscar a
sintonia exacta da música a lhe sussurrar toda a sua devoção. Ela, estupefacta,
por se ver dentro, sentada, confortavelmente instalada na vida daquele homem
que sentia conhecer de outras vidas, de outros caminhos, de outras
cumplicidades e entendimentos. Um afecto tão grande, uma ternura tão imensa, um
desejo tão feroz, um sentimento de pertença tão… ele era a identidade dela.
Sentia-o assim: ela.
Toca-o na mão, ao de leve, sem querer, e é a nuca que o
entrega, é o arrepio no pescoço após um subtil encolher involuntário que
engrena o motor do olhar atento dela. Disfarça, não pretende melindrá-lo, nem
tampouco oprimi-lo no seu livre arbítrio, sorri a gratidão do instante e
aligeira o passo “ Nem pensar, não quero incomodar!”, não disse o resto, deveria
ter terminado a frase “Nem pensar, não quero incomodar, só quero mesmo é …”
Coloque aqui, caro
leitor, todos os palavrões imagináveis e concretizáveis que o levem aos
píncaros do êxtase - àquele momento em
que as pálpebras cerram por breves segundos e os olhos rodam sobre si mesmos
para cima e para dentro, oh! -, pois bem, era isso que aqueles dois estranhos
com não mais do que cinco minutos de conversa, sentiam.
Fugiram. Por incrível que pareça, fugiram. Já lá vão quatro
anos, a caminho de cinco, e ainda ninguém os encontrou, nem tampouco um ao
outro.
Oh!
Conceição Sousa