14* Carácter
“Carismática,
professora, se tivesse de a definir numa palavra diria carismática.”, talvez
tivessem passado uns três anos desde que ouvi, em palavras, de um jovem próximo
da vintena, aquilo que sentia no olhar de muitos outros, mas que nunca haviam
definido. E perante o meu estarrecer de espanto, concluiu “ Ninguém faz as
coisas como a professora faz e ninguém diz como a professora diz. Muito menos
cantam como a professora canta. Já avisei a escola para contratar um seguro de
quebra de vidros.”
Todos
riram, oh, e como gosto de sentir toda a gente a rir. “Ai!, menino, porte-se
bem! E agora é hora de cantarmos Beyoncé: I was here. Ready for the English
class?” Meio mundo a tapar os ouvidos, maxilares em meia-lua, olhares
atravessados, canetas a bater o ritmo, trautear baixinho e uma explosão de
felicidade nas vozes que já não se prendem, nas vidas que se entregam. E a
professora? Será que alguém a ouve? Hummm!
Se há espaço para dar e receber carinho é, com
toda a certeza, uma sala de aula. E são tantos os corações que precisam. Hoje,
até numa escadaria, um menino, que nem é meu aluno nem nada, parou no corrimão
e quis contar-me, eufórico, que o dia tinha sido estrondoso. Teria uns onze
anos, as faces rubras de tanto entusiamo, e não conseguiu segurar-se, contou-me
tudinho (o que aos meus olhos poderia bem ser um filme de terror…), não
permitia que o interrompesse, o danado do garoto, e estava tão acelerado na sua
euforia que, confesso, seria um crime impedi-lo de soltar todas aquelas palavras
magníficas, relativas ao seu próprio dia. Estava cheia de pressa, mas,
imperturbável; fiquei, cerca de 15 minutos, ali, só a ouvi-lo, encantada de que
alguém estivesse tão decidido a partilhar toda a sua felicidade comigo. Tive a
impressão de que aquele garoto não havia usado uma única palavra desde que
nasceu e, agora, ali, perante uma estranha famosa nos corredores da escola, entornou
o caudal todo. Eu ficaria, naquele momento, para toda a eternidade, não tivesse
tocado o raio da campainha. Sou sincera: nem abri a boca. E senti-me milionária
por aquele menino me ter escolhido cúmplice da sua felicidade.
Não
vem ao caso o assunto, até porque seria uma deslealdade, e se há coisa que não
sou é desleal. Não sou muitas outras coisas e esta é, seguramente, uma delas.
Tenho sempre um afago na ponta dos dedos para uma cabeça que se prostre no meu
destino , um “ vai correr bem, vais ver” ou um “parabéns!”, talvez por isso
estas grandiosas pessoas se aproximem e
me façam feliz. “ E o teu gato, está melhor?”, pergunto, um brilho curioso e
enternecido na retina, à menina de castigo na biblioteca, a que, no dia
seguinte, faz questão de me acenar um adeus, do lado de fora da porta
envidraçada da sala de estudo, a que vai de rompante mais as amigas tecer as
pulseiras da moda. “ A mãe, já saiu do hospital? E como se chama a mana?
Trouxe-te uma prenda?”, ajeito o cabelo de uma outra, um pouco tristonha, ao
fundo da sala “ Rais-parta a garota, vais ver que vais ser a heroína dela, uma
boneca de verdade, já viste? Queres melhor?”
Carácter.
Carácter é perceberem em nós aquela isenção, aquele separar das águas, aquele
emudecer para a vizinhança quando o assunto até somos nós mas não nos cabe
tecê-lo, dado o prejuízo que causará em todos os restantes. Emudecer. E ouvir
mais do que falar.
Carácter.
Assumir um erro. Desculpar-se pelo erro. Reflectir e não insistir na receita só
porque é a nossa receita.
É tão belo o
sorriso. É tão belo o sorriso de quem nos fez muito mal e, mesmo assim, nos
perdoou quando pedimos desculpa. Só porque elevamos um tom agressivo – e não é
de bom tom elevarmos o tom, principalmente se for violento.
“Desculpa pelo
tom. Não pelo que disse, não retiro uma palavra, pelo tom, desculpa.”, alívio
em mim no sorriso que vejo em ti. E a cada dia o sorriso aumenta, como as fases
da lua, e é lindo. Que bom que te pedi desculpa e tu perdoaste. O que me
fizeste fez o teu sorriso que eu esquecesse. Não lembro mais. Carácter.
Não sei porque canto tanto o amor. Só sei que
o canto. E canto-o por todos os cantos: de casa, da sala de aula, da rua, da
internet, do planeta. Canto-o. E há janelas que se quebram, é verdade.
Quebram-se para que a pessoa saia desse lado e toque na pessoa daqui.
“ Vai correr
bem, não temas, vai correr bem”, o teu cabelo por entre os meus dedos de
escrevente, o teu coração por entre a minha tinta de união.
“Vai correr
bem, meu anjo. Eu estou aqui.”
Conceição
Sousa
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